Como pessoas sonhadoras sobrevivem no mundo pragmático

Tem gente que desde cedo voa. É aquela criança tão imersa em seus pensamentos que nunca responde ao primeiro chamado. “Estava no mundo da lua?”, pergunta o interlocutor mais pé no chão. Sim, ela estava. E cresce com a cabeça lá, entre crateras e dragões.

Não é fácil para os sonhadores lidarem com a realidade. Ainda menos com o mundo de hoje, que exige objetividade. Sonhar é quase uma transgressão. Mas seriam justamente eles, diz a coach Melina Kunifas, que movem o mundo. Ou os grandes inventores não seriam sonhadores? Thomas Edison poderia pensar que estava “viajando” ao testar, por mais de um ano, diferentes materiais para usar de filamento na lâmpada elétrica. Walt Disney, contra todos que o chamaram de louco – inclusive a própria esposa –, hipotecou sua casa e seu carro para terminar o longa de animação Branca de Neve e os Sete Anões. E Bill Gates, ainda menino, sonhou que um dia milhões de pessoas teriam seus computadores pessoais. Se eles não tivessem seguidos suas intuições, como seria o mundo hoje?

“O ser humano é um ser de projetos. Sonhar é sua marca essencial”, afirma o coordenador do curso de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Jelson Oliveira. “Quem não sonha, se deixa levar pelos acontecimentos, sem meta, sem objetivo”, completa.

O grande problema de gente que voa demais é justamente esse: estabelecer metas. Sem elas, o sonho não passa de ilusão. E não é preciso querer mudar o mundo todo de uma vez: objetivos inalcançáveis geram frustração. “Há tanta gente infeliz porque falta um sentido maior em suas vidas. Não precisa ser fora do comum, pode ser tornar-se uma supermãe. As pessoas precisam se perguntar o que as faz felizes”, diz Melina.

Vivendo o sonho

“De alguma maneira as pessoas pagam o preço quando não acreditam no sonho”, garante com toda propriedade Eve Ferretti. Desde a infância, sonhar era sua diferença. Com a cabeça cheia de imagens, ela desenhava o tempo todo. Mas, em vez de ter o talento inato reconhecido, foi podada. Na segunda série, a professora decretou que escola não era lugar de desenho. Tinha mesmo é que saber Português e Matemática.

Assim, Eve bloqueou seu lado artístico. Quase parou de desenhar. Quando o fazia, era escondida, achando aquilo errado.

Chegada a hora de escolher a profissão, Eve penou. Fez curso técnico de Desenho Industrial, faculdade de Design. Ao pedir emprego na área, encontrou um chefe que soube olhar para ela. Os desenhos mínimos, acanhados nas bordas de seu portfólio, chamaram a atenção dele que, no lugar da vaga procurada como designer, ofereceu uma de ilustradora “porque você nasceu para isso e ainda não sabe”.

Mas um sonho abafado não se refaz assim, de supetão. Ela ainda foi procurar outro caminho. Achou que era no teatro. Um ano depois, no camarim, teve uma visão. “Me vi pintando e senti que minha alma seria mais feliz assim.” Sem perder mais tempo, foi a uma aula de pintura. A moça inquieta, que nadava 2 mil metros por dia com a angústia de quem sabe que lhe falta algo, não viu o tempo passar: “No primeiro dia, quando vi já tinham se passado três horas. Me reencontrei com a Eve da infância”, conta.

Os desenhos delicados, cheios de detalhes e imagens da infância de Eve podem hoje ser vistos em livros infantis. E a moça teve restabelecido o direito de sonhar, mas com um pezinho no chão: contratou o serviço da coach Melina para achar o caminho entre o sonho e a realidade. “Hoje está mais leve para mim ser eu mesma. Ser sonhadora não é um defeito, é meu perfil. Quanto mais você se aproxima da sua essência, mais perto você vive do lugar que tem de estar de fato.”

Você é uma pessoa sonhadora? Como faz para conciliar seus sonhos com as necessidades práticas do dia a dia? Conte para o Viver Bem!

Fonte: www.gazetadopovo.com.br

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